PAUSAR O TRABALHO SEM PERDER SUA VAGA NA VOLTA? SAIBA MAIS SOBRE O SABÁTICO

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Em setembro de 2017, o gerente de vendas Márcio Vieira Gibara realizou um sonho antigo: fez um curso de inglês em Boston, Estados Unidos, junto com a filha de 17 anos. Foram quatro semanas estudando, praticando o idioma e mergulhando em uma nova cultura.

“Foi um período marcante e extremamente positivo para a saúde mental porque me proporcionou bem-estar, realização e satisfação pessoal e profissional”, conta.

“Trouxe aprendizados e novas habilidades que renovaram minha energia e fortaleceram minha relação com a empresa que me deu essa oportunidade.”

No segundo semestre do ano passado, quando grande parte dos brasileiros já podia receber a vacina contra Covid-19, o gerente de acesso ao mercado e relações governamentais Ricardo Oliveira decidiu que era hora de desconectar do trabalho e aproveitar um tempo em família, depois de meses de isolamento e stress.

“Fomos a lugares que havíamos programado visitar antes da pandemia, interagimos e pudemos ter conversas sobre o dia a dia que muitas vezes ficam de lado pelas demandas cotidianas”, lembra. “Recarreguei as baterias e voltei ao trabalho com mais vontade e garra para buscar as oportunidades de conhecimento e crescimento dentro da empresa.”

Para viver essas experiências longe da rotina de trabalho, nenhum dos dois profissionais precisou pedir demissão ou teve dias descontados das férias. Na verdade, eles continuaram recebendo salário normalmente e, na volta, retomaram suas posições exatamente como antes. Márcio e Ricardo são funcionários da farmacêutica Biogen Brasil, que oferece desde 2014 o chamado período sabático (da palavra shabat, “descanso”, em hebraico), um tempo para que os colaboradores possam investir em projetos pessoais.

O benefício está disponível a todos os funcionários com seis anos ou mais de trabalho contínuo na empresa (desde que não estejam em programas de recuperação de performance). Basta alinhar a data com o gestor e agendar. Caso não seja retirado até que se complete 12 anos de casa, ele é perdido e não pode ser compensado financeiramente.

“São quatro semanas consecutivas para que o colaborador possa focar em objetivos individuais, investir em desenvolvimento e aprendizado, se sentir desconectado das demandas de trabalho, reduzir o estresse e se reenergizar após um período contínuo de trabalho na Biogen”, explica Luciana Cardoso, diretora de RH. “A oportunidade também promove maior engajamento e encoraja os colaboradores a investirem nas suas carreiras a longo prazo, aumentando a retenção de talentos na empresa.”

Benefício importado

Já popular em outros países, o período sabático também tem se popularizado no Brasil, especialmente em multinacionais, que importam a ideia de suas matrizes, adaptando-as à realidade e legislação local.

A Intel Brasil também permite que funcionários que estejam na empresa há mais de três anos tirem de dois a quatro meses e depois voltem no mesmo cargo. O salário é mantido integralmente, mas certos benefícios são pausados, como auxílio de internet. De acordo com a empresa, esse período é utilizado principalmente para viagens mais longas, cursos e cuidados com a família.

“O sabático traz a chance de o funcionário descansar e cuidar de si mesmo, e sabemos que colaboradores saudáveis trabalham melhor e têm mais intenção de permanecer na empresa”, diz Carolina Prado, gerente de comunicação da Intel Brasil e Canadá. “Além disso, esse benefício também trabalha o desenvolvimento de pessoas porque muitas vezes abre a oportunidade para cobertura da vaga.”

Na fabricante de pneus alemã Continental, o sabático é não-remunerado, mas a empresa coloca o funcionário em contato com especialistas em finanças para planejar o período com antecedência. A ideia é que um planejamento financeiro adequado permita que colaborador navegue pelo período sem turbulências.

Desde que foi implementado na empresa, em 2016, 55 funcionários já tiraram o sabático por períodos que variam de um mês a um ano. Foram 33 colaboradores da área administrativa e 22 da fábrica.

“Além de deixar claro que somos iguais e não fazemos distinção ao oferecer o benefício, nós aumentamos o engajamento e o orgulho de pertencer à empresa”, acredita Ana Cláudia Oliveira, vice-presidente de relações humanas para Brasil e Argentina.

Na Bimbo Brasil, o sabático começa como política em agosto de 2022, mas funcionará de forma diferente: colaboradores da área administrativa que tiverem bom desempenho e cuja posição permita o trabalho remoto poderão se mudar temporariamente para outro país para realizar cursos de idioma ou técnicos. Mas a ideia é que continuem trabalhando em sua função, com salário e benefícios mantidos.

“Com isso, acreditamos que manteremos os funcionários conectados com a empresa, satisfeitos por terem essa oportunidade e também mantendo o vínculo de trabalho”, diz Mario Escotero, diretor de gestão de pessoas, comunicação, jurídico e assuntos corporativos.

O que pode e o que não pode.

Na multinacional alemã Merck, o período sabático foi implementado na esteira de discussões sobre flexibilidade no modelo de trabalho, com base em tendências do mercado e em necessidades levantadas por funcionários em pesquisas e em grupos de trabalho.

“Observamos que muitos colaboradores queriam focar em estudos em período integral ou mesmo na vida pessoal, como é o caso de mães que desejam acompanhar de perto o primeiro ano de vida dos filhos depois da licença-maternidade”, diz Edise Toreta, head de RH para América Latina da Merck, que implementou o benefício no início de 2020. “Eles não tinham outra alternativa que não fosse pedir demissão, mas, agora, com o sabático, conseguimos retê-los.”

Na empresa de ciência e tecnologia, funcionários com mais de dois anos de casa podem pedir a licença não-remunerada por um período que varia de 30 dias a 12 meses depois de realizar um requerimento por meio do gestor direto.

Na volta, ainda que não seja na posição original, têm uma vaga garantida – embora alguns acabem optando por não voltar. “Uma antiga funcionária nossa tirou um sabático de 10 meses no Canadá e, ao término do curso, decidiu se mudar para o país”, conta Edise.

Apesar de oferecer tanta flexibilidade, vale ter em mente que, durante o sabático, o funcionário continua no quadro da empresa, e alguns compromissos não podem ser quebrados. Por isso, não é permitido trabalhar para outra companhia ou desempenhar atividades que conflitem com as políticas corporativas do empregador.

Lugares Incríveis para Trabalhar

O Prêmio Lugares Incríveis Para Trabalhar é uma iniciativa do UOL e da FIA para reconhecer as empresas que têm as melhores práticas em gestão de pessoas. Os vencedores são definidos a partir dos resultados da pesquisa FIA Employee Experience (FEEx), que mede a qualidade do ambiente de trabalho, a solidez da cultura organizacional, o estilo de atuação da liderança e a satisfação com os serviços de RH. A pesquisa já está na fase de coleta de dados das empresas inscritas e as empresas vencedoras devem ser anunciadas em agosto.

Fonte: Uol Economia

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