Rodrigues Jr.

31/08/2018
Jovens querem conexão no ambiente de trabalho

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Até recentemente, as empresas acreditavam que, apesar das facilidades trazidas pela tecnologia, a presença física no ambiente de escritório era fundamental para gerar mais resultados, integrar equipes e promover competitividade. O que pesquisas recentes têm demonstrado, no entanto, é que a nova geração de profissionais que surge no mercado traz consigo outra mentalidade: o que eles querem é ter conexão com a empresa e com seus colegas de trabalho, não importa de que forma. Ou seja, para eles, é possível ter conexão e atingir os resultados sem presença física, sem leitura de linguagem corporal e com conversas e reuniões mais curtas.

Um estudo recente realizado pelo Ibope Conecta e encomendado pela Microsoft sobre a percepção dos brasileiros em relação à transformação do ambiente de trabalho a partir do uso de novas tecnologias revela que, para 85% dos entrevistados, realizar uma reunião remotamente já não deixa a desejar em comparação com encontros presenciais. Questões como flexibilidade de horário, áreas de trabalho compartilhadas e possibilidade de home office estão entre os principais elementos que definem um ambiente de trabalho moderno para esse público.

Apesar de a sala de reunião ainda ser o local onde ocorrem a maior parte das interações (65%, especialmente entre entrevistados de 25 a 34 anos), 16% dizem que o local onde melhor fluem o trabalho em equipe e a colaboração é a copa ou cozinha – e, entre os diretores, 18% disseram que elas se dão no trânsito. E mais: 90% dos profissionais entrevistados consideram que um ambiente de trabalho moderno, que traz essa nova realidade possibilitada pelo uso da tecnologia, influenciaria a sua decisão ao analisar uma proposta de emprego. A pesquisa foi realizada entre maio e junho deste ano com 1,5 mil profissionais de variados níveis hierárquicos, mercados e profissões.

Minha pergunta é: até que ponto as organizações e seus executivos estão prontos para essas importantes mudanças? Afinal, a redução na frequência das relações gera a necessidade de se descobrir novas formas de conexão. É preciso instalar novos comportamentos dentro dos ambientes corporativos, e isso requer uma mudança cultural importante que raríssimas organizações (em geral multinacionais) já começaram efetivamente a implementar. No caso das empresas estatais, a distância é ainda maior entre a realidade e as novas demandas dos gestores e demais trabalhadores.

Como estabelecer relações de confiança sem o olhar, sem perceber o que o “body language” do outro quer dizer? Como conectar seus colaboradores verdadeiramente? Vale lembrar que conexão não é a mesma coisa que trabalho em equipe. É algo bem mais complexo e para o qual a maior parte das organizações ainda está despreparada tanto do ponto de vista tecnológico como, e especialmente, da gestão de pessoas.

Sei de muitos casos de empresas que adotaram o home office, por exemplo, mas a efetividade desse modelo depende de cada gestor. Dentro de uma mesma organização, alguns se adaptam muito bem e encorajam o modelo, enquanto outros ainda preferem ter seus pintinhos debaixo de suas asas e enxergam com muita desconfiança a capacidade produtiva dos funcionários que trabalham de casa ou de outros lugares remotos.

Estamos falando de compartilhamento e busca de novos conhecimentos. De acolher essas novas necessidades, conhecer o que há de mais moderno em termos de tecnologia e como elas podem nos ajudar. Abrir a mentalidade para um formato completamente diferente daquele ao qual fomos acostumados. E perceber que a velocidade das mudanças é hoje muito maior do que no passado, portanto não podemos ficar parados no tempo.

Lembro que essa necessidade de aprender não se dá apenas no meio profissional, mas também é uma questão para a vida, uma adaptação às mudanças tão rápidas que estão ocorrendo no mundo.

Será preciso estudar muito depressa e profundamente essa nova relação das pessoas com o trabalho e com as empresas e a grande transformação que isso trará para dentro das empresas em termos de estruturas e gestão de equipes. A inteligência artificial, por exemplo, é outro caminho sem volta. As organizações precisarão agir rápido, caso contrário perderão não somente talentos, mas também competitividade.

(*) Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados.

Fonte: Valor Econômico, por Vicky Bloch (*), 23.08.2018...