Rodrigues Jr.

07/07/2017
Crise amplia casos de afastamento do trabalho por ansiedade

Voltar

Medo em relação ao futuro, palpitações, insônia, falta de ar, sensação de paralisia.

Situações assim, que descrevem alguns dos sintomas de ansiedade, têm levado mais pessoas a ficarem afastadas do trabalho.

Dados da Secretaria de Previdência mostram que as concessões de auxílio-doença por transtornos de ansiedade cresceram 17% em quatro anos —passaram de 22,6 mil, em 2012, para 26,5 mil em 2016.

Neste período, as despesas com o benefício à União foram de R$ 1,3 bilhão.

A ansiedade já responde por dois em cada dez afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, categoria que também abrange a depressão, transtornos bipolares, esquizofrenia e problemas relacionado ao uso de drogas, por exemplo.

Fica, assim, atrás apenas de depressão, que responde por com três em cada dez concessões desse tipo de benefício. O auxílio-doença é previsto para segurados do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) acometidos por doenças e incapazes de continuar o trabalho.

O alto volume de afastamentos por transtornos mentais tem chamado a atenção de médicos, defensores públicos e representantes do governo.

“Antes, o número de ações por causas ortopédicas era absurdo. Agora, o de ações por transtornos mentais tem crescido, a ponto de ser quase já a metade”, relata Isabela Simões, defensora pública da União que atua na área previdenciária há nove anos.

Para especialistas, alguns fatores explicam o aumento. Entre eles, estão a crise econômica e a maior conscientização sobre transtornos como a ansiedade, o que colabora para a busca por diagnóstico e tratamento.

“Doenças psiquiátricas menores, em que o stress ambiental é um fator para desencadeamento, aumentam em época de crise econômica, porque aumenta a insegurança. E aí entra depressão e crise de ansiedade”, afirma o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do ambulatório de ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP.

A ansiedade, segundo ele, é mais comum que a depressão, mas é menos diagnosticada.

“É desafiador enfrentar a temática do transtorno mental porque ele é subjetivo. Há essa dificuldade do ponto de vista do diagnóstico, do tratamento e da perícia”, diz o subsecretário do Regime Geral de Previdência Social, Benedito Brunca.

Bernik, no entanto, explica que a incapacitação profissional é um dos fatores que ajuda a diagnosticar quando a ansiedade é uma doença. “Não é branco e preto. O que vai determinar se é uma doença ou não é o sofrimento excessivo e prejuízo funcional”, diz.



Hoje, transtornos mentais e de comportamento são o terceiro maior motivo de afastamento do trabalho. Os dois primeiros são lesões e doenças do sistema osteomuscular, como dores nas articulações.

SEM VOLTAR

“Comecei a ser muito pressionado, e quando vi, estava doente”, conta o bancário Webert Maciel, 28. Segundo ele, a situação começou após ter sido alvo de assédio moral na empresa onde trabalhava.

“Tinha pânico de sair de casa. Passava cinco dias sem dormir e comecei a desmaiar”, relata. “Fui suportando, suportando, e quando vi, estava com depressão profunda”.

Mesmo com laudo de três médicos e dois psicólogos, ele conta que teve que recorrer à Justiça para comprovar no INSS que o quadro tinha ligação com o trabalho.

O diretor da ANMP (Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social), Francisco Eduardo Cardoso Alves, diz que, em geral, é mais simples associar ao trabalho casos de afastamento por lesões ou fraturas, por exemplo.

“Nós conseguimos definir que naquele momento a pessoa está incapaz para executar o trabalho que ela faz, mas daí a associar [transtorno mental] ao trabalho é mais complexo, devido à natureza da doença”, diz.

João Silvestre Silva Júnior, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, diz que os empregos com cobranças exageradas e metas abusivas colaboram com a alta dos casos de ansiedade.

Em muitos casos, diz, o trabalhador “esconde” o diagnóstico ou evita procurá-lo, por medo de perder o emprego.

Afastada do trabalho há um ano depois de diagnosticar o problema, Daili Bilharva, 42, ainda não consegue pensar em retomar a função de auxiliar de serviços gerais em uma empresa em Porto Alegre.

“Só de pensar, fico desesperada”, diz.



Fonte: Folha Online – 26/06/2017

...