Rodrigues Jr.

24/03/2016
“É preciso falar sobre saúde mental dentro das empresas”.

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A analista comercial Maria da Silva* tinha um cotidiano comum e dormia normalmente. Há um ano, essa rotina mudou. Ela começou a acordar durante a noite e não conseguia mais voltar para a cama. No início, ela achou que era um distúrbio do sono, mas outros sintomas começaram a aparecer.

Atividades prazerosas – como ir ao cinema ou sair com os amigos – se tornaram um martírio. Aos poucos Maria* começou a se isolar. Nos finais de semana, quase não saía de seu apartamento, na zona sul de São Paulo.

O desânimo começou afetar sua produtividade no trabalho. Ao procurar ajuda médica, veio o diagnóstico: depressão.

O problema não é pontual, e sim mundial. Uma pesquisa recente publicada pela Business in the Community (BITC) revela que as doenças mentais já são a principal causa de afastamento do trabalho no Reino Unido.

No Brasil, a depressão está na terceira posição dos males que afetam funcionários, os primeiros ainda são traumas e lesões musculares.

Mas essa lista deve sofre alterações nos próximos anos. De acordo com um estudo da Organização da Mundial da Saúde (OMS), até 2030 a depressão deve ser a doença que mais afetará pessoas no mundo.

Além de gerar um grande sofrimento para quem é afetado, esse mal atinge diretamente as empresas. Uma pessoa depressiva perde em média oito dias por mês de trabalho, para outras doenças a média é de apenas dois.

“Parte das empresas está preocupada com essa questão, mas algumas ainda têm receio de debater o assunto abertamente no ambiente de trabalho”, afirma psicóloga Fátima Macedo, fundadora da Mental Clean, consultoria especializada em saúde mental.

Tabu

Nos séculos passados, os sintomas associados a problemas mentais eram considerados desvios de comportamento. Em algumas sociedades, a depressão, por exemplo, era vista como preguiça ou falta de fé.

E mesmo hoje, com desenvolvimento da medicina, algumas pessoas encaram o diagnóstico de transtorno mental como algo criado na mente do individuo, e não realmente como uma doença. Há ainda quem acredite que ansiedade ou depressão são sinais de fraqueza emocional.

O silêncio de algumas empresas sobre o tema ajuda a estigmatizar o assunto. Há empresários, de acordo Fátima, que não tocam no tema por receio de que essas doenças sejam associadas ao ambiente de trabalho ou de que o debate levante uma demanda contida.
Há outras empresas que desconhem os reais efeitos dessas doenças na produtividade de seus funcionários e consideram essas assistências apenas como custos e não investimento.

“É fundamental que pessoas olhem para essas doenças de forma natural e sem preconceitos”, afirma Fátima. “Existem diversos fatores que podem desencadear ansiedade e depressão – que nem sempre estão relacionados aos trabalhos. Questões pessoais ou hereditariedade contribuem para o desenvolvimento desses males.”

Projeto

Apesar dessas barreiras, a demanda por programas que ajudam a diagnosticar e tratar funcionário com doenças mentais está crescendo dentro das grandes empresas.

A construtora Abyara e a mineradora Vale, por exemplo, têm projetos que apóiam o bem-estar psicológico de seus funcionários. A multinacional Unilever é umas pioneiras no Brasil em projetos de apoio psicológico.

Mesmo em pequenas empresas – que têm menos recursos – é possível adaptar esses programas para caber em qualquer orçamento, de acordo com Fátima Macedo.

É o caso da Feitiços Aromáticos, produtora de cosméticos sustentáveis de Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo. Raquel da Cruz, cofundadora da empresa, decidiu implementar um projeto de saúde mental depois que conheceu o trabalho da Mental Clean.

“Temos uma preocupação grande com o treinamento dos nossos funcionários, com da comunidade ao redor da empresa e com sustentabilidade. Ter um programa que ajuda a saúde mental foi mais passo para garantir a qualidade de vida da nossa equipe”, diz Raquel.

Feitiços Aromáticos tem 18 funcionários que receberam um treinamento básico e que periodicamente são informados sobre o tema por meio de boletins. Caso seja necessário, a empresa custeia o tratamento ou parte dele.

“Acho que a maioria dos empresários considera isso como apenas um gasto, mas na verdade é um investimento faz para ter um funcionário mais capacitado”, afirma Raquel.

Fonte: Diário do Comércio, por Thais Ferreira, 04.03.2016...