Rodrigues Jr.

23/03/2016
Empresas aderem à licença-paternidade.

Voltar

Em novembro do ano passado, enquanto se preparava para o nascimento da primeira filha, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, anunciou que iria tirar dois meses de licença após a chegada da bebê. No mesmo mês, a empresa passou a oferecer a chamada “licença-parental” para funcionários homens ou mulheres que têm ou adotam filhos em todos os países onde tem escritório. Com a medida, os pais podem escolher tirar até quatro meses de licença remunerada ao longo do primeiro ano de vida do filho, mesmo em países onde o período não é previsto por lei.

Em um cenário em que poucas empresas oferecem políticas similares, a decisão de Zuckerberg se destacou. Mas ela também representa uma tendência crescente de um mercado que tenta acompanhar mudanças sociais, em busca de acomodar funcionários com demandas diferentes – decorrentes, por exemplo, da chegada das novas gerações nas empresas. Muitas companhias já estendem benefícios de mães a funcionários homens, criam programas específicos para esse público ou debatem o papel do pai na família atual.

O capítulo mais recente dessa discussão veio há duas semanas, quando foi sancionada a lei que estende a licença-paternidade de 5 para 20 dias dentro do Programa Empresa Cidadã, criado em 2008 para incentivar a extensão da licença-maternidade de 4 para 6 meses. A medida vai afetar quase 18.700 companhias, que hoje fazem parte do programa. Elas representam, no entanto, apenas 10% das empresas tributadas pelo lucro real, elegíveis a participar da iniciativa em troca de concessão de incentivo fiscal.

Mesmo com efeito prático restrito, entretanto, a mudança na lei pode ampliar a discussão sobre benefícios voltados para funcionários pais, na opinião de especialistas. A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad, acha que a lei pode ajudar a levar esse assunto para os departamentos de RH de empresas de grande porte, fortalecendo uma tendência já observada nos últimos anos. “Se a empresa está preocupada com um público entre 25 e 35 anos, por exemplo, é atrativo oferecer soluções que contribuam para os primeiros anos da vida de um filho.”

Desde janeiro deste ano, a marca de roupas masculinas Reserva, com 750 funcionários, começou a oferecer 30 dias de licença-paternidade. A iniciativa veio do próprio presidente, Rony Meisler. No nascimento dos dois filhos, o executivo tirou férias de um mês – assim como faziam muitos funcionários da empresa, segundo a gerente da área de pessoas da marca, Carolina Portella. “Por que não dar o mês de licença para não prejudicar as férias?”, diz ela.

A decisão foi incorporada ao orçamento deste ano, e a expectativa de Carolina é que ela ajude na retenção e no engajamento do quadro, que hoje tem uma média de 26 a 35 anos – faixa de idade em que, na opinião da gerente, o benefício é ainda mais valorizado.

O gerente de e-commerce da marca, Rafael Passos, descobriu a nova política quando sua mulher, Paula, estava entrando no nono mês de gravidez do segundo filho do casal, a bebê Clara, agora com um mês e meio. A escolha por tirar os 30 dias foi imediata. Fez diferença, no entanto, o fato de o comunicado ter vindo do número um da companhia. “Uma coisa é o funcionário exigir seu direito, outra é a própria diretoria da empresa e os donos definirem isso e as pessoas se sentirem à vontade para aderir”, diz.

Na época do nascimento do primeiro filho, David, hoje com dois anos, Passos geria um negócio próprio e tirou apenas os cinco dias de licença permitidos por lei. “Agora, pude ajudar durante as madrugadas nas primeiras semanas, quando é tudo muito intenso para mãe. Da outra vez, fiz isso menos e ia trabalhar exausto”, diz. Além de compartilhar os cuidados da recém-nascida com a esposa, Passos também considerou sua presença importante para David, que precisou de atenção até se acostumar com a irmãzinha.

Um estudo da Boston College, realizado com mais de mil profissionais pais americanos, a maioria de companhias que oferecem licença-paternidade remunerada, investigou a relação desses homens com o período. Na média, o tempo tirado foi de duas semanas, período disponibilizado pela maioria das companhias. A pesquisa apontou, por exemplo, que quando a licença é opcional, os profissionais tendem a usufruir de todos os dias disponíveis.

Nem todos conseguem, contudo, se desligar completamente do trabalho no período. Quase metade dos profissionais disse que se manteve disponível para emergências, e mais de 40% checou o e-mail diariamente. Menos de 20% disse que não fez trabalho algum durante o período.

A psicóloga e profissional de RH Cristiane Turatti está reproduzindo o estudo no Brasil como parte da sua pesquisa de mestrado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Ela observa que existe uma forte correlação entre a cultura da empresa e a forma como os profissionais usufruem da licença. “Ele precisa sentir que a companhia dá abertura, e perceber que não vai ‘queimar o filme’ se usar a licença”, diz.

No Facebook Brasil, por exemplo, os funcionários pais que já usaram o benefício tiraram, em média, 40 dias de licença logo após o nascimento do filho. Segundo Ana Carolina Borghi, gerente de RH do Facebook para América Latina, a ideia é que o período de quatro meses possa ser usado até o fim do primeiro ano de vida do filho. “Muitos elos são criados nos primeiros estágios de vida e queremos que nossos funcionários possam desenvolver esses laços”, diz.

A Avon, que integra o programa Empresa Cidadã e anunciou a adoção da licença de 20 dias no dia 8 de março, tem tentado, nos últimos dois anos, incentivar os profissionais homens a tirarem férias de 30 dias quando eles se tornam pais. Segundo a vice-presidente de RH, Alessandra Ginante, o número de funcionários que fazem essa escolha cresceu de 1% para 10% nesse período – mas ainda está distante da maioria esmagadora das mães que emendam as férias na licença de seis meses.

Como parte da estratégia de diversidade da empresa, a Avon tem promovido campanhas de comunicação e palestras sobre o papel do homem, abordando temas como a infelicidade masculina. A iniciativa faz parte do planejamento da empresa no Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que reconhece organizações que realizam avanços nesses temas. “Esperamos que a licença de 20 dias faça com que a empresa retenha um tipo de homem que se adapta mais à nossa cultura.”

Também participante do programa Empresa Cidadã, a Nestlé estendeu a licença-paternidade para 20 dias neste março, alguns dias antes da lei ser sancionada. Segundo a gerente executiva de remuneração e benefícios, Mariana Albino, a empresa já havia decidido aumentar o período no fim do ano passado, após o anúncio de uma política global que recomendou a extensão da licença em todos os negócios.

“Todas essas práticas refletem nos resultados de clima organizacional, com mais engajamento e retenção”, diz. Dentre os 20 mil funcionários no Brasil, todos que tiverem filhos têm direito a um “presente nascimento” de um salário mínimo na chegada do bebê, e a auxílio lactante, que subsidia produtos para filhos de até um ano com prescrição médica.

A IBM possui um programa de trabalho flexível chamado “pós-natal para pais”, onde os funcionários que têm filhos podem passar quatro meses trabalhando 40% da jornada de casa. Disponível desde 2007, a o número de profissionais fazendo uso do programa aumentou nos últimos três anos, segundo a líder de diversidade e inclusão, Adriana Ferreira.

Ela atribui o aumento a um incentivo maior da própria IBM por meio da comunicação interna, o que diminuiu o receio de os profissionais se sentirem prejudicados ao adotarem o modelo. “Também fazemos parte da campanha HeForShe [da ONU], que trouxe a tona o fato de a responsabilidade do filho ser compartilhada. O homem não pode fazer isso ‘para ajudar’ porque a função de cuidar do filho não é só da mulher”, diz.

Tania Casado, professora da FEA e diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP, considera a mudança na lei um avanço comportamental. Segundo ela, inúmeras pesquisas apontam que, no geral, a responsabilidade de cuidar do filho e da casa ainda fica com as mulheres mesmo quando ambos têm ganhos similares. Mudanças formais, como novas leis, são importantes para uma transformação cultural. “Não vai ser um processo rápido, mas é um caminho sem volta”, diz.

Fonte: Valor Econômico, por Letícia Arcoverde, 21.03.2016...